Sim, a classe média sofre!

Sofrível, pra dizer o mínimo, o discurso que tem sido levantado nos últimos dias a respeito de uma palestra realizada por Marilena Chauí, que aconteceu aliás, em agosto do ano passado e que dias atrás foi reforçado mais uma vez, para fúria geral da nação. Suas declarações causaram tanto estardalhaço e indignação, que aqueles que “vestiram a carapuça” de serem uma verdadeira abominação política, ética e cognitiva – como diz Chauí – estão derramando todo seu ressentimento pelas redes sociais, ressentimento gerado por um inconformismo que beira o pedantismo. Pedantismo justificado pelo teor presente nos argumentos utilizados para crítica, os quais se baseiam em por exemplo: “eu sou alguém da classe média que simplesmente por querer “subir na vida” estou sendo visto tal qual um ser abominável. Mas como isso pode acontecer? Eu pago minhas contas, eu pago meus impostos, eu estudei e tenho méritos para estar onde estou”. Outros argumentos ao invés de enfatizar uma “ética” do homem meritocrático, apelam para a crítica pessoal e tentam “alfinetar” a figura de Chauí, dizendo que ela está criticando a classe da qual ela mesma faz parte e que isso seria um contrassenso. Dizem que a classe média não é uma coisa só, ou seja, que há aqueles pertencentes ao que realmente faz parte das 3 abominações ditas por ela, mas que outros não. Inconformismo daqueles que não aceitam serem criticados, pois, claro, pressupõe que suas ações na sociedade são as mais íntegras e incorruptíveis.

Todo esse levante de inconformismo expresso nos últimos dias decorre de uma sensação de que algo muito essencial e muito íntimo foi contestado: as palavras de Chauí agem como um espelho. Um espelho que ao ser colocado diretamente nos olhos de cada um, faz ver uma face obscura, uma face que ninguém gostaria de ver e a esconde a todo custo. A imagem refletida (agora escancarada) gera um abalo significativo na imagem que a classe média faz de si mesma. Ela não aceita ver este reflexo, ela diz horrorizada: “isto não sou eu. Isto são os outros”. Chauí consegue atingir o âmago da classe média, consegue quebrar a honradez que este grupo se diz portador ao andar pelas ruas cotidianamente. Neste, a sensação de integridade é tanta que quando críticas lhe são conferidas, logo se forma todo um arsenal de contra-ataque. Dizem: “Eu sou diferente, eu não ajo como os demais boçais que compõe a sociedade. Eu sou distinto dessas pessoas, sou aliás, uma pessoa muito distinta”.

Ser uma pessoa distinta! Vamos pensar um pouco sobre esta idealização de um bom cidadão: ser uma pessoa distinta das demais pessoas quer dizer que esta pessoa se considera única, única em sua maneira de pensar, em sua maneira de agir perante as demais, é aquela pessoa que respeita todos seus direitos e também deveres num estado democrático de direito. E ah, não se esqueça, suas atitudes são sempre justificadas como o supra sumo da racionalidade, são fruto de uma análise infalível, são sempre elegantemente acertadas e válidas para além dos tempos. Ser distinto significa também estar “separado” do outro, o outro é a diferença que ele não é. O outro é a falha que ele não é. Nesse sentido, “ser distinto” é uma forma de violência em relação ao outro, porém, dizem: “ser distinto, apontar o que eu não sou e o que os outros são não é violência: ser distinto é uma obviedade. Uma obviedade tão clara quanto dizer “Eu sou, mas o outro? O outro não é! Ou mesmo a outra face da moeda válida aqui: “Eu não sou, mas o outro é”. Assim tenta a classe média defender-se das ofensas, injúrias e calúnias que recebeu à sua honra:

“Alguns, somente alguns agem de maneira desonesta. Mas, eu, distintivamente, sou alguém que trabalha para ter o que tenho, sou alguém que sofreu a vida inteira uma síndrome de inferioridade e agora me reprimem por tentar sair dela? Eu? Eu não estaciono o carro em local proibido, eu nunca fiz isso, mas meu vizinho sim. Eu? Do que me acusas? De ser um mesquinho, egoísta, só porque tenho um Diploma que a duras penas me foi outorgado após anos de esforço? Após tudo isso querem dizer que mesmo assim, mesmo apesar disso tudo, eu tenho ainda resquícios de uma mentalidade conservadora? Irão agora me julgar pelo fato dos outros não terem tido a sorte que eu tive? É tão óbvio que possuo símbolos de distinção e que preciso ser tratado de maneira diferente dos demais! Eu, que pago a educação dos meus filhos e com isso faço um favor à sociedade retirando-os da escola pública que já está tão lotada? Eu que mereci ascender socialmente devido aos meus próprios méritos? Eu que fiz escolhas, e claro que foram as melhores que poderia ter feito? Como depois de tudo isso vem alguém me acusar de ser autoritário? Autoritarismo é para aqueles que necessitam de auxilio para serem governados, são aqueles que não respondem pelos próprios atos e fazem escolhas erradas, estes sim precisam de alguém que os governe. Mas eu não… Eu ando pelas cidades e vejo pessoas nas ruas, mas EU fui diferente, fiz tudo o que pude para não ser mais um número nas estatísticas. Como então que agora alguns tem a petulância de questionar o Exemplo que eu sou para os outros? Justamente eu?”

A classe média se compreende como “distinta” em dois sentidos. Distinta por enxergar-se como extremamente diferente dos outros; distinta por se considerar íntegra e incorruptível. Antes de qualquer coisa, porém, é preciso que se diga que ao se referir ao termo “classe média”, Chauí está longe de fazer referência a um grupo social delimitado, fechado, formado por aqueles que possuem rendimentos econômicos equivalentes, pois, isto seria muito reducionismo argumentativo e de um determinismo econômico leviano, reducionismo que está sendo utilizado para tentar distorcer seus argumentos.

A chamada “classe média” não é um recorte preciso baseado em uma perspectiva economicista. Essencialmente a “classe média” é uma mentalidade que permeia a sociedade brasileira em todos seus espaços, presente nas percepções tanto das ditas classes proletárias e burguesas, não sendo assim restrita a um único grupo. A mentalidade “classe média” é a imagem que inúmeras pessoas tem de si mesmo, criado a partir daquilo que os outros não são, no que falta aos outros mas não a eles mesmos. A mentalidade classe média é aquela que tem como norte um ideal de meritocracia, de distinção individual, que crê piamente na escolha individual como a solução de todos os males sociais. É uma mentalidade mesquinha, autoritária e sim reacionária a partir do momento em que não quer permitir o acesso aos demais grupos sociais que estão classificados como hierarquicamente inferiores a ela, a tudo aquilo que a “classe média” se diz detentora por seus próprios méritos, aos direitos que ela adquiriu mas que os outros não são dignos de tê-los. É a mentalidade daqueles que se dizem portadores de uma natureza neutra, racional, lógica e justa, que toma como perspectiva sempre a si mesmo, e que não aceita quando questionam o ideal de honradez que fazem de si mesmos.

Entre verdades, amores, posses e fotos

Posse, posse, mostre me sua face. Sua face, sua foice. Seu começo, sem limite.
Dia desses, numa dessas conversas que se tem enquanto se espera o ônibus de volta para casa, ouvi esta sentença: amor de verdade não faz a gente sofrer. Mesmo quando ele se vai, ele deixa algo de nostalgia, aquele cheiro de felicidade que vem a tona quando nos lembramos dele. Quem já viveu isso sabe. Uma fotografia que nos aparece de repente te leva para tempos atrás, quando tudo aconteceu, e mesmo que uma lágrima acompanhe seus pensamentos, um sorriso os acompanha. O contrário às vezes também ocorre. Más lembranças podem retornar quando se vê uma imagem, sim, ela carrega e diz mais do que mil palavras… raiva contida. Só não me arrisco a dizer se esta dor que se sente foi menos amor. Um amor de verdade? Ultimamente tenho fugido dessas explicações e buscas pela verdade. Sempre que tentamos apreendê-la ela foge, e ainda olha para trás com um sorrisinho sarcástico, sim, ela zomba da minha pessoa. Não quero definição pronta, feita por outros. Eu quero a minha percepção, construída dia a dia. Opor minha percepção com as de outras pessoas muitas vezes é um processo frustrante. Achamos que nossa visão, simples visão, teria menos valor do que as verdades que foram instituídas e tornadas reais, tão reais que não poderiam nem ao menos ser questionadas. Se o verdadeiro amor é aquele que teoricamente, idealmente, preferencialmente não causa sofrimento, sou levada a pensar que os demais, aqueles que causam, não se encaixam na definição de amor. Esse é o grande problema de tentar encaixar o empírico, a vivência individual à qualquer tipo de teorização, conceito delimitado, definição. A posse, aqueles amores possessivos, que impedem que um indivíduo seja tudo aquilo que ele quer e merece ser, aquele que desconfia e tem a cobrança como seu melhor aliado, seriam assim um exemplo de fotografia que nos traz más lembranças. Ela faz chorar, ela se mostra em sombras, impedindo a luz de atravessar. Mas esta imagem poderia muito bem ser rasgada, isso mesmo, ela pode ser feita em pedacinhos e jogada na lata de lixo mais próxima. Porém, na maioria das vezes ela continua lá, da mesma maneira em que foi tirada, sem rugas ou arranhões… Mas nada resiste ao tempo, e este mesmo tempo, com todos seus efeitos, traz dia após dia, traz chuva, traz sol, traz calor, frio, minutos, horas, dias… e as marcas começam a aparecer… primeiro no canto direito, depois um traço bem no meio, um rasgo no canto superior esquerdo, depois o direito é quem recebe suas chicotadas… Porque então viver guardando uma fotografia, lembrando daquela imagem inicial, se a mesma já mudou tanto, já sofreu tantos duros golpes? Há quem goste de colecionar coisas antigas, há quem goste de estar sempre em busca de coisas novas. Há quem sinta prazer na dor e em ver seu rosto na imagem todo dilacerado. Há quem sinta repulsa, e abra as asas, voando para outros horizontes. Talvez nestas outras paisagens existam condições climáticas um pouco melhores, que não estraguem nossa fotografia assim tão rápido… Talvez assim ela se conserve por mais tempo, e aquele sorriso fotogênico se mantenha praticamente inalterado. Eu reconheço, não sei dizer o que é um amor real, não creio na separação entre mundo das ideias e mundo real. Começos perfeitos aos que se seguem finais perfeitos dificilmente se configuram. Regras existem muitas, julgamentos ao não seguimento dessas regras existem em número ainda maior. Dicas sobre como cuidar bem de nossas fotografias estão a venda em todos os lugares, por todos os preços, há também os conselhos gratuitos. Nós mesmos damos conselhos gratuitos sem nos darmos conta disso… Também não podemos ser punidos por isso, caso contrário, nem diálogo existiria. Só sei que a zombaria continua, pelas palavras e mesmo ao olharmos aquela fotografia zombeteira. Ela me cobra uma postura, eu quero que ela venha a ser como antes e é ai que ela ri mais ainda. Ela somente diz mansamente: continue idealizando… Eu vivo o hoje, me estrago hoje, me transformo hoje. Nem mesmo o tempo, o deus dos deuses, me possui. E você… vai trilhar seu próprio caminho ou vai se deixar possuir pelas “verdades”???

Dúvidas

Não pergunte quem sou
O que faço, penso e sinto
Às vezes acho que sei quem sou
Às vezes acho que sei o que sinto,
Ao menos eu sei o que penso, só não sei se ajo como penso.
Um dia sei, amanhã duvido,
Depois questiono, analiso e silencio.
Duvido, acredito em mim,
Interpreto mal, quero bem,
Não quero mais.
Volto ao início, encontro o fim,
Eterna procura.
Procuro além o que não encontro em mim,
Encontro em mim o que não encontro além,
Continuo.

Sim, tudo ao mesmo tempo

Estranha a sensação de não viver a própria vida. Isso mesmo, é estranha a sensação de não ser verdadeiro dono de suas ações, ou mesmo sendo, sentir que a sua vida gira ao redor de outras vidas e não o contrário onde outras vidas teriam você como centro. Não estou no centro de minhas atitudes? tudo o que faço é determinado por vontades e ações de outras pessoas? Se assim é, quando estarei convicto de que é possível ser autônomo e ter um universo no qual eu dirijo as peças que circulam ao redor de mim, e não mais estarei vivendo como um ponto que é simplesmente engolido vorazmente pelas circunstâncias, sem ter ao menos condições de me rebelar contra isso? Se a condição humana é um eterno vir a ser, quem é que realmente comanda os rumos dessa mudança incansável? Dúvidas nos aparecem o tempo todo, e as vezes após muito pensar e sem chegar a conclusão nenhuma, assim, inesperadamente num dia outro qualquer, elas são clareadas. não digo totalmente resolvidas pois quem é que tem respostas definitivas a perguntas que se alteram o tempo todo, sutilmente se transformam e criam outros questionamentos? Apresentar uma resposta fixa e se prender a ela pode até significar por alguns instantes um porto seguro, uma ideia de estabilidade imutável… Mas ao se fixar demais no que ela apresenta e não abrir espaço para novas interrogações e mudanças de respostas impede todo e qualquer movimento que lhe levaria a “conclusões” momentâneas talvez mais apropriadas para as novas questões que surgiram… Momentos assim – que são muitos, basta somente prestar atenção quando os mesmos aparecem – nos impelem a repensar várias coisas que ficaram para trás e as que estamos vivendo agora, construindo novas versões para o que está por vir. Perguntar a nós mesmos qual o lugar que ocupamos neste ir e vir de acontecimentos, tentando entender se somos os criadores das próprias ações ou pelo contrário, se somos apenas reflexo das ações de outras pessoas é algo interessante e desafiador. Se se reconhece que nossa vida é mais uma resposta à vida dos outros do que os resultados daquilo que realmente queremos para nós se afirma uma grande demonstração de fraqueza, é dizer, assumir que se vive somente nas sombras do que os outros querem que eu seja, seguindo as expectativas que me foram inculcadas e que aceitei sem questionar. Mas convenhamos, ninguém é totalmente autônomo no que se refere as coisas que diz, ou às atitudes que toma… Muitas vezes esta postura é uma maneira de se proteger, é mais cômoda e também é estratégica. Pode-se também decidir ser dono da própria vida, achar que é ao menos, tentando maximizar suas vontades de modo que tudo que está ao seu redor seja atingido por seu impulso inicial, e isso se dá com tanta intensidade que o que lhe rodeia responde somente com um belo sim, não lhe impedindo em nada: ao menos essa é a impressão que se tem. Pensar utilizando dualismos, sim, não, bem, mal, eu, outro, leva a paradoxos intransponíveis, que devido a sua inflexibilidade tem respostas prontas, requentadas, rótulos para uns, rótulos para outros. Prefiro viver acreditando que rótulos atribuídos e respostas prontas não são melhores amigos de ninguém, que sou ao mesmo tempo ponto de expansão e recolhimento, que sou fruto de ações exteriores as quais não controlo mas que também sou capaz de criar aquele impulso inicial que move peças e dá novas respostas às constantes novas perguntas. Sim, tudo ao mesmo tempo.

Os deveres

Você deve acordar bem cedo, deve se exercitar, e se alimentar naturalmente. Você deve acreditar na ciência, deve acreditar na igreja. Deve questionar o mínimo possível, deve querer pouco, e só deve esperar por aquilo que é aparentemente plausível. Deve ouvir conselhos, cortar planos, adaptar-se ao possível. Deve se envergonhar do que sente, deve não querer ir além dos limites, deve não mexer no que é propriedade de outrem. Ao menos deveria querer ser bom, não perfeito, mas puro, não deve ser impuro. Deve fugir do novo, se conformar com o antigo, esperar o mundo se mover por si só, sem nenhum impulso seu. Deve fingir que se importa, aceitar o que não agrada, não esquecer as regras. Deve não querer nem se quer ousar quebrar a regra, não deve desejar a mudança, não deve desejar. Tem de viver na contra-mão, esquecendo de si mas agradando seus arredores. Deve limitar as expectativas, aspirar por modelos prontos, já acabados, e que por acaso pertencem a qualquer um, menos a você. Tem de esconder segredos, mentir pra si mesmo, cuidar para não se esquecer de nada, manter a porta trancada, não deixar a torneira aberta. Não dê ouvidos aos sonhos, não siga devaneios, não creia em imagens ilusórias. Mantenha-se em linha reta, resista às trilhas, não olhe para as curvas, resista às curvas. Ande sobre a linha de equilíbrio, mas não abra os braços demais, isso pode aproximar pessoas, não se deve querer muita proximidade com as pessoas. Elas mudam seu caminho, desvirtuam seus planos, te fazem pensar em outros planos, isto é preocupante. Não crie nada, espere alguém fazer, poupa tempo e energia. Mantenha-se alinhado, não desacate uma autoridade, não ouse olhar além do oceano, não ouse olhar além do espelho, não ouse olhar além das verdades feitas, não ouse olhar além de si mesmo. Desconfie sempre, não se disperse nunca. Associe imediatamente um efeito a uma única causa, um desastre a uma ação impensada, uma tempestade a um erro imperdoável. E ria, ria dos açoites que fazes questão de lhe flagelar, os carregue consigo para onde for, sofra, se torture, e ria, vivendo no espaço limitado, dentro de grades invisíveis, sob parâmetros construídos, dentro das expectativas do previsível, nas linhas do permitido, nos limites do concreto, nos contornos da normalidade e da moralidade. E assim, como quem acorda de um sono revigorante, com orgulho respire profundamente, olhe para o horizonte, olhe para o céu infinito e diga: sou livre!

O quase – Luís Fernando Veríssimo

Neste post resolvi colocar um texto que encontrei no facebook outro dia, postado por uma linda amiga minha! Achei tão lindo que resolvi compartilhar por aqui também!

O quase – Luís Fernando Veríssimo

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Sobre caminhos inesperados e promessas de fim de ano

Outro dia, andando rumo ao nada, decidi mudar o caminho habitual e dobrar a segunda esquina – e não a primeira como sempre fiz – rumo ao desconhecido. Essa segunda esquina me levou a um quarteirão inteiramente novo, com casas muito bonitas, nela não havia prédios, havia árvores e e bicicletas nas portas das casas. Havia pessoas sentadas na calçada, pessoas olhando toda aquela calmaria nas janelas, haviam até mesmo redes penduradas nas garagens das casas. Todo aquele cenário me pareceu muito peculiar. No meio de uma cidade frenética, onde os carros, prédios são personagens comuns, aquele lugar calmo, sereno, praticamente inóspito era como uma grande surpresa, daquelas onde o chão parece sair dos nossos pés, as nuvens ficam mais próximas, os olhos brilham pois finalmente encontraram paz, e quem já viveu um momento desses sabe como os minutos se transformam em segundos, e os segundos valem por longos minutos marcados na memória. Foi em um momento desses que vi, naquela rua tão peculiar, uma menina sentada na calçada com uma folha de papel nas mãos. Além desse papel ela tinha uma caneta e uma caixa de lápis coloridos. Quando se é criança uma caixa de lápis de cor é um universo, eles não tem somente cor, eles tem cheiro, eles exercem fascínio, criam o novo, eles dão vida. Bela mania de fantasiar eu tenho, pois imagine, uma caixa de lápis de cor é somente isso. Pra mim ela sempre foi muito mais do que isso, 12, 24, 36… e aqueles com 48 cores? Era um sonho, um sonho colorido, pois a vida nunca é em branco e preto. Resolvi me aproximar daquela garotinha. A forma com que ela se entretinha naquela situação era tão interessante que não pude deixar de me aproximar. Sentei ao seu lado, mesmo com medo de receber uma resposta hostil – pois sabe-se, crianças muitas vezes são cruéis, às vezes nos aproximamos delas com sorrisos e familiaridade, mesmo que forçada, e geralmente se recebe em troca rispidez ou uma gélida indiferença. Como sempre tive medo dessas demonstrações humanas, cheguei bastante receosa, mas mesmo assim me aproximei dizendo: oi, posso me sentar aqui?… Diferentemente do que eu previra, a resposta que obtive daquela menina foi um caloroso “oi” com um belo sorriso, sorriso que era como um convite, que me chamava a conversar com ela, o que felizmente me acalmou e encheu de alegria. Vendo que o território era seguro, perguntei: o que fazes ai? eu quando era criança também gostava muito de desenhar, vi você aqui e tive de ver o que você estava fazendo… A menina então respondeu: Ah, sim, eu gosto muito de desenhar, e quando não estou na escola eu sempre estou com meus papéis, lápis e canetinhas. Eu fico aqui desenhando, ajuda a passar o tempo. Eu quero mesmo é aprender a pintar quadros, já falei até com a minha mãe, ela disse que vai me colocar em um curso no ano que vem, mas não sei se ela vai ter dinheiro para pagar o curso. E assim, eu lhe disse: terá sim, você conseguirá fazer o curso que tanto quer, e gostará tanto que virará uma pintora muito famosa! Mas me diga, o que desenhas ai?… Estou fazendo um desenho especial hoje. Não é bem um desenho, é e não é. É um desenho e um pedido. Vi na televisão que quando chega um novo ano nós temos que traças metas, fazer pedidos para um ano novo e feliz que se inicia. Disseram que se eu colocá-los no papel eles mais facilmente se tornam realidade. Veja, aqui eu desenhei uma casa. Minha mãe sempre diz que um dia não pagaremos mais aluguel porque teremos uma casa própria. Eu não sei o que é aluguel, e ela também não me explica direito, mas deve ser algo ruim. Aqui eu desenhei um pincel e um quadro, é por causa do curso de pintura que eu disse que quero fazer… E aqui é uma bicicleta, aqui um vestido e aqui uma máquina fotográfica, porque assim as pessoas poderão ver minha casa, minha bicicleta e meu vestido… Você faz promessas pra quando começa um novo ano? Surpresa com a pergunta, parei e pensei por uns segundos, quando então respondi: é, eu sempre as faço. No ano passado prometi que deixaria de gastar dinheiro com coisas inúteis, eu gastava demais… Também prometi que iria cuidar da saúde, que iria arrumar um namorado e um cachorro… que iria sair mais com meus amigos, e que seria mais solícita com as pessoas… E você conseguiu fazer tudo isso? Me perguntou a garotinha toda curiosa. Eu tentei, eu juro que tentei… Parei de fumar, não comprei mais 3 pares de sapato toda vez que ia numa loja… arrumei um animalzinho, o nome dele é Ted, mas ele não é um cachorro, é um gato, muito esperto aliás… Hummm… interessante… moça, me diga, porque você resolveu parar aqui? Tem tantas crianças na rua, porque veio falar comigo, só porque eu estava desenhando? Sinceramente, não sei… Eu estava caminhando pela rua quando de repente resolvi virar a segunda esquina, e não a primeira como eu estava acostumada. Vi essa rua em que você mora e achei tudo muito bonito por aqui, você tem sorte de morar num lugar calmo como esse. Onde eu moro não é assim, é tudo muito confuso, não é essa calmaria que é aqui. Eu fiquei surpresa e resolvi parar, só isso… você estava tão feliz ai desenhando que decidi falar com você… foi isso… Hummm, entendi… E ela sorriu novamente… Você estava andando, procurando por algo que não sabia o que era, e de repente achou algo que não esperava. As palavras da menina soaram estranhas, complexas para uma criança daquela idade, devia ter seus 11 anos… Então respondi: é, acho que foi isso mesmo… Esquinas guardam novos caminhos, novos caminhos levam a novas descobertas, novas descobertas a novas oportunidades, novas oportunidades a novas esquinas… Dia a dia tecemos um pedacinho de um grande mapa, cheio de ramos e linhas turvas, retas, que nos levam, simplesmente levam… seguimos sem saber o desenho final desta trama, sem saber os nós que encontraremos nessa rede, sem saber se saberemos como desatá-los… Olhei ao redor, definitivamente não queria ir embora dali, mas disse mesmo assim: Agora é hora de ir, muito obrigada pela sua companhia minha pequena, você fez meu dia mais feliz… espero que nos encontremos um dia desses, nos acasos da vida, nas esquinas que surgem, nos momentos únicos que duram segundos, minutos, e que ficam marcados como infinitos instantes na história de cada um de nós… Levantei e segui meu caminho, tomando todo o cuidado para na próxima vez, novamente me perder nas vias do desconhecido…